"Sou um praticante meio relapso. Geralmente acordo às três e meia da manhã. Depois, imediatamente faço minhas recitações e cânticos..."
Fonte: livro "Conselhos Espirituais do Dalai Lama", editora Verus

“Para concluir, deixem-me falar algo sobre meditação num dia típico de minha vida. Sou um praticante meio relapso. Geralmente acordo às três e meia da manhã. Depois, imediatamente faço minhas recitações e cânticos. Seguindo esse ritmo até o desjejum, dedico-me à meditação, principalmente a analítica. Então, depois de cada meditação analítica, faço a meditação concentrada. O principal objetivo da minha meditação é o aparecimento dependente, as coisas são vazias. Isso está de acordo com a filosofia Madhyamika de Nagarjuna e c com a interpretação de Chandrakirti.
Assim, meditar sobre tudo isso faz nascer em mim uma espécie de convicção firme na possibilidade da cessação de emoções aflitivas. Esse é um dos principais objetos de minha prática. O outro é a compaixão. Esses são meus objetos de prática. Se vocês me perguntarem sobre a experiência em minha prática, acho que é quase zero. Com base nisso, posso lhes garantir que a mente está sempre mudando; por isso, por mais aflitiva que seja a emoção, há sempre uma possibilidade de mudança. Transformação é sempre possível. Por isso sempre há esperança. Acho que o que vale mesmo a pena é fazer um esforço.
Na tradição budista tibetana, o tantrayana budista também se inclui. Muito tempo é dedicado à visualização na ioga da deidade. Essa técnica inclui a visualização do processo da morte e do renascimento. Na verdade, em minha oração ou prática diária, visualizo a morte oito vezes e o renascimento oito vezes. Não se trata necessariamente da reencarnação do Dalai Lama, mas de alguma reencarnação. Sinto que essas práticas são muito poderosas e úteis para uma pessoa se familiarizar com o processo da morte; assim, quando a morte de fato acontece, ela está preparada. Se tais práticas vão realmente me beneficiar na hora da morte, não sei. Suponho que, com toda essa preparação para a morte, ainda posso ser um fracasso completo! Isso também é possível.
Há outro tipo de meditação que é como a oração. Seu propósito é relembrar os vários níveis e estágios do caminho, passando por algo que a pessoa memorizou e fazendo-a refletir sobre cada estágio.
Assim, das três e meia, aproximadamente, até as oito e meia da manhã, fico totalmente ocupado com meditação, oração e coisas do gênero. Nesse período, faço alguns intervalos, incluindo o tempo para o desjejum – geralmente às cinco horas – e algumas prostrações. Depois das oito e meia, quando minha disposição está boa, pratico alguns exercícios físicos. Uma coisa muito importante que sempre faço é escutar as notícias da BBC. A seguir, trabalho no escritório até o meio-dia. E, se for feriado, começo lendo textos importantes. Geralmente faço a oração e a meditação sem utilizar texto algum. Ao meio-dia eu almoço. Depois, usualmente vou para o escritório e trabalho um pouco mais. Às 18 horas, tomo chá e janto como um monge budista. Finalmente, por volta das oito e meia da noite, vou dormir – minha meditação mais tranqüila e a favorita!” |