Eu sou uma pessoa solitária - cercada de amigos
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Fonte: SonntagsBlick, 30/07/2005
Traduzido do alemão e adaptado para o Caminho do Meio por Eliane Steingruber
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SB: Sua Santidade, esta já é a décima quinta vez que o Senhor visita a Suíça.
DL: Tantas vezes? (reflete um pouco) Pode ser...
SB: O que o atrai tanto à Suíça?
DL: Não podemos esquecer que a Suíça foi o primeiro país da Europa a acolher os refugiados tibetanos, após a invasão chinesa. Também foi na Suíça que foi construído o primeiro mosteiro tibetano, o mosteiro de Rikon. Essas já são razões suficientes para visitar o seu país com freqüência. Sou muito agradecido à Suíça pelo apoio ao povo tibetano. Mas duas das vezes em que eu estive em seu país foi devido a tratamento médico.

Dalai Lama brincando com o presente recebido durante sua estada na Alemanha, por ocasião do Prêmio da Paz.
SB: Amanhã, dia 01 de agosto, será o dia nacional da Suíça. O Senhor gostaria de transmitir algum voto especial por ocasião deste evento?
DL: Também em tempos passados, a Suíça se empenhou pela paz mundial, o que eu muito admiro e aprecio. Também me impressiona o fato de muitas pessoas de diferentes culturas e idiomas viverem juntas e em paz no seu país...
Desejo à Suíça que possa conservar essa mente aberta e seus valores tradicionais.
SB: A nossa religião, o Cristianismo, está enfraquecida, e muitas pessoas se interessam no momento pelo Budismo. Como o Senhor analisa esse fato?
DL: (Sua Santidade reflete durante um tempo) É muto moderno, hoje em dia, sempre procurar e experimentar algo novo. O velho, ou antigo, não conta, apenas pelo fato de ser antigo. Mas o Budismo como “moda” não me diz absolutamente nada, pois isso não é algo sério, muito menos profundo. Ainda assim, existem umas poucas pessoas que estudam o Budismo de forma séria e tentam aplicar o que aprendem nas suas vidas. Isto é bom, pois o Cristianismo pode, de fato, aprender algo, no que diz respeito à compreensão da consciência humana, dos sentimentos e do significado da mente.
SB: O que seria isto, principalmente?
DL: O Budismo oferece uma compreensão profunda sobre como consciência funciona. Também sobre como surgem os sentimentos negativos, tais como raiva, inveja, apego; ou positivos, como amor, compaixão, alegria. Aprendemos também como lidar com esses sentimentos de forma efetiva. O Ocidente tenta resolver todos os problemas através do plano material, com a tecnologia. No entanto, há ainda o plano espiritual, que funciona de forma diferente, e do qual nós temos mais experiência. Hoje em dia, há muitos cientistas e psico-analistas que começam a se interessar pelo Budismo. E não há nenhuma necessidade de se converter ao Budismo para isso. Mesmo não aderindo ao Budismo como religião, podemos, ainda assim, aprender muito dele.
SB: A igreja cristã é tida por muitos como não flexível e ultrapassada – principalmente no que diz respeito à moralidade. Qual é o significado da moralidade no Budismo?
DL: Na verdade, somos muito parecidos. Os monges e monjas budistas também tomam votos de castidade, o sexo não é permitido. Também para os leigos a moralidade é algo importante. Nós evitamos o contato sexual impróprio. Ainda assim, talvez haja uma pequena diferença: no Cristianismo, as regras vêm normalmente de fora, com normas, que são impostas. Já no Budismo, nós procuramos promover os valores da moralidade dentro das próprias pessoas, ou seja, elas vão perceber o sentido da moralidade dentro de si mesmas, através de suas próprias experiências.
SB: Na Suíça, cada segundo casamento acaba em divórcio. Muitos dispõem de grande liberdade sexual, mas não são felizes, pois desejam uma relação mais duradoura. Que conselho o Senhor daria a essas pessoas?
DL: Talvez fosse necessário eu ter alguma experiência nesse sentido para poder aconselhá-las (Sua Santidade dá uma gargalhada). Mas agora, vou falar sério. Muitas pessoas não se conhecem bem o suficiente antes de se casar. E aqui eu me refiro a conhecer o “ser”, o “espírito” da outra pessoa e não apenas o corpo. Há duas formas de beleza que atraem as pessoas umas às outras, e a primeira é a beleza do corpo. Muito mais importante, porém, é a segunda, a beleza da alma, pois ela é a base para uma relação duradoura.
SB: O estresse é um sentimento dos tempos modernos; até as crianças sofrem desse mal hoje em dia. Este seria um sintoma gerado por uma sociedade doentia?
DL: Não acredito que poderíamos abordar isto desta forma. O problema não é tão externo – da sociedade -, o quanto aparenta. Ele vem de dentro. Problemas internos e doenças precisam ser tratados de formas diferentes do que os externos. Se as pessoas apenas compreendessem um pouco mais sobre os processos mentais, sobre a natureza humana, elas se estressariam bem menos.
SB: O Senhor visitou muitas vezes o falecido Papa João Paulo II. Como foi o seu contato com ele?
DL: Ele foi um grande amigo meu, que contribuiu de forma muito positiva para o mundo.
SB: Já há um encontro previsto com o novo Papa?
DL: Ainda não, mas eu espero poder encontrá-lo em muito breve.
SB: O Senhor está engajado de forma muito profunda no diálogo inter religioso. O Senhor acredita que o fundamentalismo religioso poderia ser superado desta forma?
DL: Há duas formas de fundamentalismo. Primeiro, essas pessoas que explodiram bombas em Londres ou em Scharm el Scheich. Mas dentro delas não há nada a ver com religião. E nenhum diálogo vai ajudar. Mas há também o fundamentalismo “comum”. Este seria quando uma pessoa acredita que a sua religião é boa e as outras são inferiores. Apesar de também esta forma de visão já ter causado muitos sofrimentos, ela pode ser superada através do diálogo.
SB: O Senhor já encontrou todos os políticos importantes dos nossos tempos. Qual deles mais o impressionou?
DL: Willy Brandt, o último chanceler (chefe de governo) alemão. Em meio à guerra fria, ele deu o primeiro passo para o diálogo entre a Polônia e a União Soviética. Isto merece grande admiração, pois foi a base para a paz entre dois países. Dos políticos que ainda vivem, Vaclav Havel, ex-presidente checo, seria o próximo. Ele é meu amigo.
SB: Qual seria o seu ator preferido – tirando Richard Gere?
DL: Oh, tenho nenhuma idéia. Filme, cinema, tudo isso não me interessa. E Richard Gere não me interessa como ator, mas como uma pessoa que se dedica seriosamente ao Budismo e que apoia muito a causa do Tibete. Muitas vezes, pensei comigo mesmo, “Deveria ver um dia um de seus filmes”, mas nunca tive o tempo.
SB: Para melhor me preparar para esta entrevista, eu assisti, juntamente com o meu filho de dez anos de idade, o filme “Kundun”, de Martin Scorsese, sobre a juventude do Dalai Lama...
DL: Este eu conheço. E o que o seu filho achou do filme?
SB: Ele ficou bem impressionado, mas não pôde acreditar que tudo aquilo realmente aconteceu.
DL: Isto eu posso entender. Eu mesmo me pergunto, às vezes, se tudo aquilo que eu passei realmente aconteceu. Mas eu posso garantir. Tirando algumas poucas cenas, o filme é autêntico. Quando seu filho crescer, ele deveria uma vez visitar um país sob um regime político autoritário. Desta forma, aprende-se o que a ditadura realmente significa. Ele também deveria conhecer alguns tibetanos e viver algum tempo entre eles. Então ele vai compreender o que nos aconteceu há cinqüenta anos.
SB: Podemos constatar que o Tibete e a China sempre tiveram muitos contatos – alguns bons, outro ruins. Por que parece hoje tão difícil resolver a questão do Tibete, uma vez que o Senhor só requer a autonomia cultural para o seu país?
DL: De fato, nós abrimos mão da independência do Tibete. Tudo o que requeremos é a liberdade cultural e a liberdade para exercer a nossa religião. A China é uma grande nação com um regime de governo autoritário. Mas a China está sob um grande dilema. Ela já se esforçou muito, já investiu muito dinheiro no Tibete – como a construção da linha de trem -, mas a questão do Tibete ainda não foi resolvida. China ainda não conseguiu conquistar a lealdade e o reconhecimento do povo tibetano.
SB: E o tempo está se esgotando para os Tibetanos?
DL: Olhando os fatos, poderíamos realmente pensar assim. Nas últimas dezenas de anos, muitos chineses se instalaram no Tibete. Em algumas regiões, eles já formam dois terços da população. Eu vejo o problema a partir de uma perspectiva global: o mundo mudou. Também a China mudou. De fato, o regime autoritário de um único partido ainda está presente, mas tudo está em movimento. Há muitos intelectuais chineses que se interessam pela causa do Tibete e criticam fortemente o regime político autoritário. Esta visão está crescendo e isso me dá novas esperanças.
SB: Uma última pergunta: o Dalai Lama é uma pessoa solitária?
DL: (Mais uma vez, Sua Santidade reflete durante um tempo) Sim, ele é uma pessoa solitária. Uma pessoa solitária rodeada de amigos.
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