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A Consolidação do Carma

 

Robert Thurman, estudioso budista, fala sobre como o sofrimento, até mesmo através de uma tragédia, como a do tsunami, pode oferecer uma vantagem cármica.

Entrevista por Lisa Schneider

Traduzido e adaptado para o site: Eliane Steingruber

Fonte: www.phayul.com


Robert Thurman é professor “Jei Tsongkhapa” de estudos Indo Tibetanos e Catedrático do Departamento de Religião da Universidade de Colúmbia da cidade de Nova Iorque. Co-fundador da e presidente da Casa do Tibete, em Nova Iorque, uma organização sem fim lucrativos, dedicada à preservação da cultura tibetana, ameaçada de extinção. Thurman é ainda autor de vários livros, entre eles, o best seller internacional, “Revolucção Interior”.

 

P: Por que coisas ruins acontecem na vida das pessoas boas? É a culpa do carma?

Thurman: Falando de forma abstrata, o carma não é uma teoria que tem a ver com o destino, mas é a teoria da causalidade. E é dito que algo ruim acontece como resultado de alguma coisa ruim que você tenha perpetuado em uma vida passada.

O mais importante sobre o carma, o que também poderemos querer chamar de carma coletivo, é que, quando, apesar de as pessoas não terem feito nada de especial, uma coisa terrivel, como um desastre natural, acontece, o bodisatva, ou a pessoa do lado de fora, contemplando a situação, nunca invoca a teoria do carma para dizer, “Bom, não preciso me preocupar, pois foi o resultado do seu mau-carma, uma vez que eles se perderam e se tornaram muito maus” , como se fosse uma fatalidade ou uma forma de justificar o disastre. Este termo nunca deveria ser usado desta forma.

O bodisatva nunca acolheria a incondicionalidade dessa explicação, mesmo estando talvez ciente disso. Ao contrário, o bodisatva vê o acontecimento como uma tragédia terrível, não provocada e não merecida, e faria todo o possível para salvar as pessoas do desastre e ajudar os sobreviventes.  

Por outro lado, a teoria do carma, que afirma que tudo o que acontece é o fruto das nossas ações negativas passadas, é sempre útil para aqueles que estão em sofrimento. Em outras palavras, usar a teoria do carma para responsabilizar a vítima pode ajudá-la a ajudar a si mesma. Essa idéia é surpreendente. Se as vítimas apenas sentarem e se revoltarem contra o universo, contra Deus (para os teistas) ou culparem o carma, na verdade, elas estarão enfraquecendo a si mesmas, no sentido de que estarão apenas enfatizando a sua impotência.

Enquanto que, se dizemos, “Vou usar esse desastre que aconteceu comigo como uma punição pelas ações negativas cometidas por mim, no passado, contra o universo, e eu vou me fortalecer com isso...” em outras palavras, contra o disastre, não se pode fazer mais nada, mas podemos fazer alguma coisa agora sobre a nossa reação, “Não vou agora adicionar novo sofrimento ao sofrimento já causado, torturando a mim mesmo e sentindo-me impotente e odiando o mundo ao meu redor. Vou assumir a responsabilidade de ter sofrido as conseqüências desse desastre como parte do meu carma e, portanto, vou usar essa tragédia como uma vantagem rumo à liberdade, rumo à iluminação.”  

 

P: Desta forma, as pessoas podem encontrar um sentido no sofrimento?

Thurman: Eles certamente encontram um sentido, mas encontrar uma vantagem é o ponto principal. Eles podem dizer, “Esse esforço que eu vou fazer será um esforço consciente.”

Mas, se eles tiverem morrido, naturalmente, não poderão fazer nada mais nesta vida. No entanto, sob o ponto de vista budista, se eles tiverem uma remota memória da catástrofe, que eles morreram em pânico, com medo e preocupação pelos seus familiares e pessoas queridas, e assim por diante, se eles guardarem alguma memória dessa morte – o que, na visão budista do bardo, do estado intermediário, realmente acontece com os recém falecidos – e se eles pensarem, “Bom, este é um carma terrível que aconteceu para mim e para outros. Eu vou tentar fazer deste meu sofrimento um sacrifício, um resultado das minhas ações negativas passadas e eu vou ter uma vida melhor no futuro. Vou agora tentar ajudar os seres que perderam a vida, meus entes queridos e outros, e vou ser mais útil para eles na minha vida futura.” Desta forma eles poderiam aproveitar o estado intermediário, após a morte para melhorar seu renascimento, ao invés de apenas ficar dopado pela experiência negativa.

 

P: Qual consolo o budismo pode oferecer a aqueles que perderam seus entes queridos?
Thurman:
O consolo para os sobreviventes que perderam alguem é tentar pensar da seguinte forma: “Bom, eles perderam suas vidas, eu perdi o meu contato com eles, mas sofrendo, me deprimindo e lamentando sobre a tragédia e manifestando o ódio sobre a situação não vai ajudar. Eu deveria orar para todos os que morreram e enviar vibrações positivas para seus renascimentos em condições melhores. Se eu realmente os amo, eu vou orar para encontrá-los novamente numa vida futura, independente de onde eles venham a renascer, para contribuir para que eles tenham um mundo melhor, e fazer o voto de encontrá-los novamente em uma vida futura.”  Desta forma, a consolidação do carma não se limita à perda de pessoas queridas, limitadas à manifestação física de uma vida particular, mas a um sentimento de conexão espiritual com um sentido maior de continuidade de vida e enviando boas vibrações nessa direção.

Os teistas afirmam que tudo isso é a vontade de Deus e que Deus tomam conta deles, e têm esperança de reencontrá-los no céu, o que também não deixa de ser um consolo e uma maneira de deixar tudo na mão de Deus. Mas o carma é reconhecer tudo isso como um processo no qual nós também somos o agente responsável. De outra forma, a vastidão da confusão causal é tão grande que se torna incompreensível. Não se admira que muitos chamam isso de Deus, ou vontade de Deus, ou providência Divina.

Mas o ponto principal é que o carma não é um exercício de um agente ou uma divindade particular; mas trata-se de um processo impessoal da causalidade. Eu chamo esse processe de causalidade evolutiva.

 

P: O que o Senhor quer dizer com isso?

Thurman: Trata-se de uma causalidade a partir da qual os seres se expandem. Do tipo, se nós agimos de uma certa forma, vai se produzir um efeito dessa ação, porque ela muda nossa existência e esta evolui. Essa evolução pode ser numa direção negativa ou positiva, isto vai depender se as ações são negativas ou positivas. De uma certa forma, o carma é uma teoria biológica, exatamente como a teoria genética biológica ocidental. E se trata de uma teoria genética biológica, na qual há seres humanos renascendo como animais e animais resnascendo como seres humanos. A este processo, é ainda adicionado a idéia de que o gene espiritual, ou gene espiritual, seria entrelaçado com o processo genético de renascimento. De tal forma que nossa a própria consciência individual pode tornar-se o animal, ou tornar-se o deus, ou tornar-se o humano, ou pode torna-se seja o que for.

 

P: É difícil generalizar através das culturas, mas existe um período tradicional de luto para os budistas?

Thurman: No contexto budista, consideramos que ações tais como chorar incontroladamente, lamentar-se, gritar, arrancar os cabelos e rasgar as roupas, não são propriamente uma boa idéia, pois elas não têm o poder de realmente aliviar a situação da pessoa. Essas reações, na verdade, até aumentam a emoção. O ponto principal, na visão budista, é que a pessoa que acabou de morrer ainda permanece, por um certo tempo, consciente do que as pessoas que ela deixou para trás, os sobreviventes, estão fazendo. Assim, a pessoa se sente muito angustiada e confusa e ela vivencia aquela emoção como algo muito perturbador. Assim, sempre que alguém se encontra dominado pela aflição, a tendência, especialmente na cultura budista tibetana, é tentar acalmar o sobrevivente e fazer com que ele tenha pensamentos bons e positivos e envie boas vibrações a quem que se foi.

 

P: Assim, a natureza da aflição deveria transformar-se em olhar para frente e encher-se de compaixão para com os outros?

Thurman: Sim, isto é considerado o melhor – enviando de coração realmente fortes vibrações de amor e proteção ao falecido. Porque, no ponto de vista budista, a transição mais difícil é a transição em que a pessoa falecida se encontra no momento, a transição “morte-renascimento”. Mesmo considerando o provável grande rompimento em suas vidas, comparando com os que estão no bardo intermediário, os que ficaram não estão em uma situação igualmente drástica, uma vez que eles ainda se encontram em seu corpo físico, em um ambiente, a eles, familiar. Desta forma, na visão de mundo do budismo, a sua prioridade é a de enviar boas vibrações aos que se foram.

 

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