Por ocasião da vinda de Alan Wallace ao Brasil, em junho deste ano, surgiu a necessidade apresentar esse grande Mestre às pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer o seu trabalho.
Para este fim, foi criado esta entrevista, em forma de um pequeno diálogo, entre Alan Wallace e alguns dos organizadores do seu evento no Brasil. Paralelamente, as mesmas perguntas serão adaptadas para entrevistas com o lama Padma Samten.
Esta primeira entrevista, que se deu por telefone, no dia 31 de março de 2005, terá a sua seqüência no decorrer das próximas semanas.
ECB: Equipe de Coordenadores do Brasil
AW: Alan Wallace
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No que diz respeito à utilização da abordagem cognitiva budista nos trabalhos acadêmicos de várias origens, temos por um lado o descortinar de panoramas muito vastos e ricos, por outro lado há a dificuldade de orientadores e trabalhos acadêmicos que sejam referenciais válidos aos olhos das universidades tradicionais. Qual sua visão sobre esta questão? |
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Em muitas disciplinas, como em Física, Música ou Artes, por exemplo, as pessoas realmente capazes de expressar-se dentro delas não são as pessoas que as estão estudando, mas aquelas que as praticam verdadeiramente, de forma ativa. Isto é assim em Física, em Matemática, nas Artes e em muitas outras áreas.
Isto também é válido para pessoas que dispõem de um conhecimento puramente acadêmico sobre o budismo, que estudaram muito sobre o budismo, mas nunca verdadeiramente praticaram o que aprenderam e, portanto, não adquiriram nenhuma experiência sobre aquilo que aprenderam. Sem nunca ter realmente praticado o budismo, a compreensão adquirida pela pessoa sobre a natureza budista como um todo se torna muito limitada, superficial e mal orientada.
Por outro lado, uma pessoa que apenas pratica o budismo, sem ter nunca de fato se dedicado à sua teoria, também não está apta para falar sobre o tema. Especialmente em um ambiente acadêmico, no qual uma boa compreensão cognitiva é essencial, querer falar sobre o budismo, munido apenas da sua prática, sem dispor da compreensão teórica, é como tentar escalar uma montanha com as mãos atadas.
Assim, vemos que há dois tipos de abordagens muito distintas: o caminho prático, ou seja, as pessoas que começam a praticar sem ter uma noção correta do budismo, ou a partir de uma educação inadequada nas teorias budistas e, especialmente, na visão de mundo budista; e o caminho acadêmico, ou seja, pessoas que estudam o budismo, sua história, suas línguas, seus conceitos, mas não têm nenhuma experiência da prática budista.
Essas duas abordagens deveriam andar de mãos dadas. Esses dois aspectos precisam se ajustar, juntar-se, pois, só assim, alguém pode se beneficiar dos ensinamentos budistas. Acima de tudo, só assim, o benefício completo do budismo pode ser oferecido ao mundo moderno.
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Poderia nos dar um exemplo mais concreto da abordagem prática, como ela pode ocorrer? Como uma pessoa pode se equivocar no caminho de tal forma?
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Isto pode acontecer em qualquer tradição budista, ou não budista, e de diversas formas. A pessoa pode, por exemplo, começar a praticar o budismo a partir da recitação de um mantra, sem ter recebido nenhuma instrução a respeito. Por outro lado, um praticante pode receber as instruções da prática do Nondro, praticar por um longo tempo, sem procurar nenhuma instrução adicional. Uma pessoa pode ainda ter participado de um único retiro de meditação na sua vida, por exemplo, um retiro dzogchen ou mahamudra, e afirmar, “Eu compreendo o budismo.” Tais pessoas normalmente têm uma compreensão muito limitada do budismo. Se elas tentarem expressar alguma coisa sobre o tema, devido a esse conhecimento tão limitado, elas vão provavelmente deturpar o budismo. Isto simplesmente porque elas não o estudaram o suficiente.
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Com respeito a questões mais amplas como liberdade, democracia, economia, violência urbana, guerras, colonialismo, destruição ambiental, o senhor poderia dizer algumas palavras?
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O mundo é continuamente afetado pelos desastres naturais, como terremotos, maremotos, avalanches, etc. A nossa influência a respeito não é muito grande, portanto, devemos simplesmente aprender a nos proteger de tais desastres.
Por outro lado, há também muitos problemas no mundo causados por seres humanos. Problemas esses que criam misérias desnecessárias e muito sofrimento aos próprios seres humanos, não só diretamente, mas indiretamente também, através da destruição do nosso planeta. Esses tipos de problemas, de acordo com o Budismo, são gerados pelo desiquilíbrio e aflições da mente, tais como, apego, avareza, hostilidade, ódio, ignorância e ilusão. Esses desequilíbrios, chamados no budismo de aflições mentais, podem ser reduzidos e, possivelmente, até mesmo eliminados, através de um treinamento apropriado, especificamente, através da prática de meditação. Ou, falando de uma forma mais ampla, eles podem ser reduzidos através da prática da ética, da meditação e do cultivo da sabedoria.
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| ECB: |
Como ajudar as pessoas, hoje em dia, a sair desse processo destrutivo, no qual mesmo os valores básicos humanos parecem ter perdido a importância? |
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Se uma pessoa deseja solucionar os problemas do mundo, é muito importante que essa pessoa comece consigo mesma, tentando solucionar e curar os problemas dentro da sua própria mente. Se tentamos resolver os problemas do mundo sem ter reduzido as tendências pessoais de apego e aversão na nossa mente, então, ao mesmo tempo que vamos talvez conseguir solucionar alguns dos problemas, provavelmente agravaremos ou criaremos alguns outros.
E esse, infelizmente, foi o caso de muitos revolucionários na história humana, que reconheceram as injustiças sociais, econômicas e muitos outros tipos de problemas políticos e sociais. Mas, ocasionalmente, eles tentaram resolver esses problemas sem a compreensão necessária. Suas mentes estavam propensas a emoções, como ódio, orgulho, egoísmo e confusão. Mesmo muitos deles tendo tido sucessos e criado revoluções, estas acabaram por gerar outros problemas, possivelmente não diminuindo o sofrimento humano, tampouco reduzindo a destruição do meio ambiente. Portanto, é muito importante não nos deixarmos cair no cinismo, ou apatia, ou desespero.
Ao mesmo tempo, se desejamos trazer mudanças benéficas, positivas, para a humanidade, é muito importante começarmos conosco mesmos; é importante começarmos essas mudanças no nosso coração e na nossa mente. Temos muito pouco controle sobre o que acontece no resto do mundo, mas, no mínimo, deveríamos ter a habilidade de começar produzindo no nosso coração, na nossa mente e no nosso comportamento, nas nossas ações, as mudanças benéficas que gostaríamos de ver no mundo.
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| ECB: |
Quando compreendermos os ensinamentos budistas e começamos a praticá-los, a nossa vida muda. Os nossos interesses, as nossas prioridades na vida mudam. De repente, nos vemos “nadando contra a maré”. Dependendo de onde vivemos, com quais pessoas temos contato, surgem os preconceitos. O senhor já se deparou com preconceitos a respeito não só contra budismo, em geral, mas também contra a sua maneira de viver, as suas idéias e visão de mundo?
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| AW: |
Bien sur!!! (certamente!), mas isso percence à tradição budista! Mesmo o próprio Buda, assim como os seus ensinamentos, vai contra o fluxo do resto do mundo.
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Que conselho o senhor poderia dar às pessoas que se confrontam com esse problema?
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Mais uma vez, se nós estamos produzindo mudanças positivas no nosso coração, na nossa mente e no nosso comportamento, então, somos nós os primeiros a experienciar os benefícios dessas mudanças. Mesmo se o resto do mundo não se transforma, ou não age de acordo com as nossas expectativas ou esperanças; mesmo se as outras pessoas não nos ouvem ou não aceitam o que nós temos para oferecer, no mínimo, nós temos a satisfação da alegria que sentimos sobre os grandes benefícios, sobre a grande graça, sobre virtude na nossa própria vida. E esta pode verdadeiramente ser uma grande fonte de satisfação.
Ao mesmo tempo, os grandes mestres budistas, durante todo o decorrer da história, sempre precisaram cultivar a paciência e a tolerância, cientes de que os ensinamentos e práticas budistas são de muito difícil compreensão. É muito difícil para uma pessoa não só ouvir, mas compreender os ensinamentos. Da mesma forma, os ensinamentos são difíceis de se praticar. E mesmo tendo praticado os ensinamentos, é muito difícil para um praticante budista perseverar na prática, até que ele tenha experimentado os benefícios dessa prática de uma forma muito profunda. Assim, vemos que os ensinamentos budistas não são para todos. Eles não são algo que podemos simplesmente oferecer a um camarada, sem refletir. Da mesma forma, eles não são apropriados para as pessoas impacientes, que buscam resultados rápidos.
A tendência do mundo moderno está ligada a interesses materiais, focando benefícios a curto prazo e, em primeiro lugar, buscando externamente as fontes de felicidade. Enquanto que o budismo está buscando a felicidade em fontes internas, e elas não são fáceis de ser encontradas, entretanto elas são de um valor incalculável.
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O que gostaria que acontecesse em sua próxima visita ao Brasil? O que sua mente e coração de praticante budista dispõe-se a priorizar no contato com os brasileiros?
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Sua Santidade, o Dalai Lama disse uma vez, “A expectativa é o fundamento para o fracasso.” Desta forma, me alegro muito por ter esta grande oportunidade de visitar o Brasil, especialmente por ser a minha primeira visita a esse país, pois nunca tive essa oportunidade no passado. Eu não tenho nenhuma expectativa, mas pretendo oferecer o melhor possível de mim. Os benefícios que vão realmente surgir através dessa visita estão fora do meu controle. Eu não sei se o que eu tenho a oferecer será aceito, se o interesse vai de fato brotar. O que realmente está sob o meu controle é a minha própria motivação, e eu vou tentar oferecer ao povo brasileiro o tudo o que estiver ao meu alcance.
Também estou ansioso para aprender mais sobre o Brasil, sobre o povo brasileiro, sua cultura; sobre os cientistas, sobre meus colegas praticantes, sobre os psicólogos, os filósofos e muitos outros que eu hei de encontrar. Mas creio que o que eu mais gostaria de enfatizar é a relevância dos ensinamentos e práticas budistas para o mundo moderno, para a sociedade, em geral. Gostaria ainda de itensificar essa interface entre a ciência e o budismo. Estou fortemente convencido de que o budismo tem muito o que aprender com a ciência, da mesma forma que a ciência tem muito a aprender com o budismo. E eu gostaria de facilitar essa união das tradições orientais e ocidentais, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Eu acredito que esse diálogo é muito necessário e de muita utilidade para ambos os lados.
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| ECB: |
Foi um prazer conversar com o senhor. Muito obrigada por essa oportunidade. |
| AW: |
O prazer foi meu. Me alegro pelo próximo telefonema. |
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