David Crow entrevista Lama Padma Samten
Pela segunda vez no Brasil, o ecobotânico, acupunturista e praticante budista norte-americano David Crow, surpreendeu quando, ao invés de dar uma palestra no CEBB Caminho do Meio, na tarde do dia 1 de maio, sobre o trabalho que desenvolve, iniciou sua fala afirmando que aprendeu tanto com o lama e com as pessoas que encontrou ao longo de sua primeira visita ao Brasil no ano passado, que viu que era na condição de aluno e não na de professor que deveria voltar este ano. Assim, fez uma pergunta ao lama e gravou sua resposta a fim de transformá-la num vídeo e apresentá-lo em suas viagens pelo mundo.
O evento, que lotou a sala de meditação do CEBB, contou com a participação de cerca de cem pessoas. A monja Tenzin Namdrol, responsável pela vinda do pesquisador ao Brasil, o apresentou e, generosamente, traduziu a palestra. Para responder à pergunta de David, como o Dharma pode ajudar o mundo contemporâneo, o lama utilizou a abordagem de Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, sobre felicidade e responsabilidade universal. “Quando Sua Santidade fala em responsabilidade universal, ele não está apelando para o nosso bom senso. Está reconhecendo algo muito profundo que já ocorre”, disse o lama.
“O mundo não é algo externo e fixo como nós usualmente imaginamos. É algo inseparável do nosso modo de olhá-lo. Isso é o que se chama de coemergência de todos os fenômenos. Ou seja, do jeito que nós surgimos, surge também a experiência de mundo. O fato de não haver separação entre o sujeito e o objeto é uma realidade, ainda que não a percebamos. Portanto, não é possível sermos felizes sozinhos. Para alcançarmos a verdadeira felicidade é preciso que os outros estejam felizes também”, afirmou o lama, aconselhando a prática de metabavana, a meditação do amor universal, em que aspiramos que todos os seres, sem exceção, se afastem do sofrimento, e das causas do sofrimento, e sejam felizes e tenham as causas da felicidade. “Quando substituímos um problema por uma visão amorosa e compassiva, nos sentimos melhores”, afirmou Padma Samten.
Segundo o lama, a noção de coemergência é a forma mais elevada de reconhecermos que não há o mundo externo e sólido. Isso nos ajuda a compreender a responsabilidade do nosso olhar. “Sempre que olhamos para algo, estamos dando nascimento para aquilo e este nascimento pode ser negativo ou positivo. É bom que seja sempre positivo”, recomenda. “Vejam o caso da Amazônia, por exemplo. Devemos nos perguntar com que olhar ela está sendo vista. Se for como fonte de recursos, o que acontece é que imediatamente os meios de tirá-los são criados e a destruição pode surgir”.
“Devemos olhar todos os seres, as plantas, os rios, os mares e as florestas através da metabavana e criar uma mandala de perfeição e harmonia. Devemos sempre nos lembrar que as dificuldades não são externas. Elas se estabelecem como visões equivocadas. Mudando as visões, transformamos a realidade. Nós devemos nos descobrir como construtores da realidade. Atualmente, temos a sensação de que não há solução para nós, mas esta é apenas a forma como nós construímos a realidade hoje. Podemos construí-la de outro modo. Ter lucidez é ver as coisas com liberdade”.
Para explicar como se dá a construção da realidade, o lama chega aos Doze Elos da Originação Interdependente e recomenda a leitura do livro do Dalai Lama sobre o tema, O Sentido da Vida. Ele brinca dizendo que fez toda a introdução, mas não vai abordar o conteúdo principal, os 12 elos, porque é muito longo.
“Para concluir, queria sugerir que nós pensássemos que a nossa felicidade nos torna menos demandante da natureza. Se estamos bem, consumimos menos. Também é bom sabermos que não precisamos levar a realidade a sério. É evidente que os milagres acontecem”. |