Lama Padma Samten
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“Quem está no serviço público está mais próximo da fonte da felicidade”


Fonte: ComunicaRH

Em suas falas, o lama Padma Samten relaciona a visão budista com situações vivenciadas no dia-a-dia e questões ligadas à saúde, à psicologia, à educação, à ecologia, à economia, à administração. Ele falou ao ComunicaRH sobre serviço público e relações no ambiente de trabalho.

O Lama Padma Samten, primeiro lama ordenado no Brasil, é gaúcho e, com o nome de Alfredo Aveline, foi professor do departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul por 25 anos. Autor de quatro livros - Meditando a Vida, A Jóia dos Desejos, O Lama e o Economista: Diálogos Sobre Budismo, Economia e Ecologia (este em parceria com o economista Vitor Caruso Jr.) e Relações e Conflitos -, ele esteve no Recife no último mês de março, realizando palestras e ministrando cursos. Em suas falas, o lama relaciona a visão budista com situações vivenciadas no dia-a-dia e questões ligadas à saúde, à psicologia, à educação, à ecologia, à economia, à administração. Ele falou ao ComunicaRH sobre serviço público e relações no ambiente de trabalho:

Estruturas pré-determinadas - Na visão budista, nós dizemos: é uma situação não só dos seres humanos, mas de todos os seres, o aspecto de nós termos ações que são previamente programadas. Os pinheiros nascem pontudos em direção ao céu, as figueiras abrem grandes galhos em direções horizontais, a grama é rasteira, os cachorros não podem passar por uma árvore ou por um poste. São estruturas de escolhas previamente determinadas. Ainda assim, nós não temos uma figueira igual à outra, não temos um cachorro igual ao outro, mas nós temos tendências dentro deles que são semelhantes. Quando nós percebemos que temos essas tendências, descobrimos que há uma espécie de prisão, que nós seguimos fazendo as mesmas coisas. Essas prisões se manifestam como uma perda de liberdade daquilo que há mais profundo dentro de nós. Vamos supor: nós queremos praticar compaixão, mas quando nós chegamos perto das pessoas com quem gostaríamos de praticar compaixão, nós temos um comportamento agressivo. Por quê? Porque brota dentro de nós um comportamento problemático. Então, o Buda diz: nós não conseguimos ajudar as pessoas, não conseguimos o comportamento adequado porque nós temos essas obscuridades mentais que brotam. Quando nós estudamos, por exemplo, a questão da identidade, nós vamos ver que o que nos caracteriza, a identidade, são justamente esse fatores estruturados dentro de nós que definem como nós vamos viver as relações.

Serviço público - Eu posso ter relações negativas comigo mesmo ou relações positivas comigo – por exemplo, cigarro, açúcar, sedentarismo, gordura podem produzir coisas negativas para mim, mas eu não consigo escapar. Nós temos estruturas que sabotam a relação conosco e temos estruturas que sabotam a relação com os outros. Do mesmo modo, nós nos relacionamos com a humanidade. Humanidade que, no fim, vai ser representada pelo poder público. A humanidade é extremamente importante porque ela representa uma qualidade abstrata de nós trazermos benefício aos outros através de uma mente coletiva. Então, a humanidade é uma inteligência. É uma inteligência que, por exemplo, cuida das estradas. As pessoas nascem e morrem. As estradas não são de ninguém, elas são dessa inteligência coletiva que é a humanidade. As pessoas que construíram as estradas já morreram, mas as estradas seguem. E linhas telefônicas, rádios, televisões, espaços públicos. Tudo isso é gerido por uma inteligência que não morre quando as pessoas morrem. Ela segue. Então, é necessário a gente compreender que essa inteligência é protetora, ela é aperfeiçoável, nós, enquanto indivíduos, podemos contribuir para isso e nos beneficiar dessa inteligência coletiva. Mas se nós sabotarmos essa inteligência coletiva, isso é um problema. As pessoas que estão no serviço público são os braços, são o corpo dessa inteligência coletiva. Elas deveriam entender isso. Elas nascem e morrem, elas vão ser substituídas por outras, as funções delas têm que seguir. Se as pessoas estabelecerem uma relação negativa com essa inteligência coletiva, como, por exemplo, se apropriarem do poder dessa inteligência coletiva para benefício próprio, elas estão sabotando, estão estabelecendo relações negativas. A gente não precisa culpar as pessoas porque isso acontece. Nós não somos culpados das próprias ações negativas, são resultados das nossas próprias estruturas. Mas as pessoas, mesmo não sendo culpadas, sofrem por isso porque, ao fazerem ações negativas, ainda que elas achem que têm vantagem, elas estão prejudicando a todos e elas prejudicam a elas mesmas. Quem está no serviço público está mais próximo da fonte da felicidade. A fonte da felicidade é nós trazermos benefícios aos outros, é nós estarmos próximos de inteligências mais amplas, que não são inteligências pessoais. Quem está no serviço público é braços e pernas dessa inteligência muito ampla. Se nós conseguirmos agir dessa maneira, nós vamos nos sentir felizes como um médico que, num hospital público, recebe alguém acidentado e consegue socorrer essa pessoa. Mesmo que ele siga anônimo, o outro não se lembre mais dele, ele sabe que fez isso. Essa inteligência coletiva, na visão budista, já é expressão do próprio Buda primordial, expressão de uma bondade natural. Nós vamos dizer que essa bondade natural tem essa origem porque mesmo que eu não ganhe nada para mim, eu descubro que eu ganho felicidade. Eu me sinto sustentado, surge uma energia que me sustenta.

Organizações - No ambiente das organizações, nós vamos encontrar os mesmos problemas. Uma organização tem uma inteligência coletiva própria. É necessário que essa inteligência coletiva da organização seja positiva. Vamos dizer assim: eu tenho uma organização muito eficiente que produz armas. Ela não é uma organização positiva propriamente, ela vai estar produzindo problemas. Agora, vamos supor que a empresa tenha méritos. Nós podemos estar lá dentro com as nossas estruturas cármicas. Então, qualquer coisa que aconteça pode produzir problemas na nossa relação com os outros, problemas na relação com a inteligência coletiva da empresa, inteligência da humanidade, inteligência do ambiente... e conosco mesmo. A gente pode eventualmente castigar nosso próprio corpo, produzir problemas de saúde, devido à forma como nós estamos lidando com isso. Nos ambientes de empresa também. Nós temos estruturas que decidem por nós, nós podemos estar operando com isso de forma inconsciente.

Relações no trabalho - O mundo espelha nossas estruturas subjetivas, nós colocamos essas estruturas no objeto que vemos. Quando uma pessoa nos perturba, atribuímos nossa perturbação às características dessa pessoa. Mas podemos ultrapassar essa perturbação pela consciência. O budismo elucida nossas estruturas na medida que vamos contemplá-las internamente. Quem é dominado por um processo cármico responde sempre do mesmo jeito, mas há um grau de liberdade. A pessoa me perturba... ou não; podemos manifestar um aspecto explosivo... ou não. No budismo, a gente diz: é necessário que a gente dê nascimento, isto é, eu mudo minhas estruturas internas e passo a ver os outros conscientemente de uma forma na qual eu descubro as qualidades positivas dele. Em vez de eu congelar o outro nos seus problemas e nas suas limitações, eu vejo o potencial do outro, eu o vejo muito além da aparência que ele tem hoje, eu o vejo também livre dos obstáculos que ele está manifestando


Anna Santoro

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Palavras do Lama...

« Nós temos estruturas que sabotam a relação conosco e temos estruturas que sabotam a relação com os outros. Do mesmo modo, nós nos relacionamos com a humanidade. Humanidade que, no fim, vai ser representada pelo poder público. »


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