Lama Padma Samten
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Saídas Para a Humanidade: Entrevista com Lama Padma Samten

O senhor acredita que ainda é possível salvar o planeta para as próximas gerações?

Todos aspiramos isto, não é verdade? A atual situação foi construída, paradoxalmente, pelas nossas aspirações de progresso e prosperidade. Avançamos muito no que diz respeito a meios hábeis de sustentar a vida e compreender o mundo ao redor. Hoje temos muito mais recursos e capacidades de mobilização e proteção. Os problemas que enfrentamos podem ser resolvidos pela mesma decisão e capacidade que gerou muitos progressos no passado. Seria de preocupar se não quiséssemos salvar o planeta, mas este é o desejo e a decisão consciente ou inconsciente de cada um de nós.

Na sua opinião, o que as empresas/ indústrias devem fazer nesse sentido?

Como uma atitude geral, temos de estar conscientes de que todos desejamos a felicidade e desejamos nos afastar do sofrimento. Estes são referenciais de cada pessoa, de cada grupo e de cada instituição. Isto é verdadeiramente o que desejamos, assim devemos examinar como atingir este objetivo e verificar onde os meios que estamos usando entram em contradição com estes referenciais. Os problemas surgem destas contradições. Acredito firmemente que todos temos uma capacidade própria de lucidez, a lucidez que nos manteve vivos até o momento. Assim, se cada um refletir sobre este tema, mesmo que de modo ainda um pouco falho, o conjunto de nossas ações individuais vai mudar, produzindo grandes melhorias nos rumos e perspectivas da humanidade como um todo. Os empresários têm um natural posicionamento de liderança, treinam sua visão e a utilizam constantemente sustentando com sua habilidade empreendimentos muito complexos. Podemos pensar nas empresas e empresários como fontes de recursos para empreendimentos filantrópicos, mas isto não representa o que eles têm de melhor. A capacidade de visão que dispõem combinada com a motivação correta que surge de uma reflexão verdadeira sobre a realidade presente e sua capacidade de liderança são verdadeiramente os pontos principais.

E as pessoas comuns, qual a contribuição possível?

Todos temos o potencial de olhar os outros verdadeiramente. Quando digo isto, quero enfatizar de que não se trata de olhar os outros seres através das sensações que surgem em nós quando os trazemos à mente. Olhar verdadeiramente é ver o outro através dos próprios olhos deles. É reconhecer as dificuldades que o outro mesmo sente e ser capaz de localizar sementes positivas que podem aflorar como felicidades e qualidades verdadeiras nele. Quando este tipo de inteligência surge, nossa vida se transforma pois encontramos a chave que aciona a alegria de nossos corações na conexão com os seres que nos rodeiam. É o momento em que deixamos de ser apenas filhos e passamos a ser também pais amorosos. Esta inteligência está presente em todos os santos, em todos os líderes verdadeiros, em todos os pais e mães lúcidos e amorosos. Esta inteligência é acompanhada de uma energia que não cessa. Esta energia amorosa é que sustenta o mundo em sua dimensão lúcida e benigna e é o que trará as transformações que todos sentimos necessárias. Ao alimentarmos internamente esta inteligência amorosa e cálida, apenas por isto já vale a pena viver. Apenas por esta inteligência profunda e calor as transformações necessárias surgirão no devido tempo.

Considerando a Teoria do Caos, de que uma pequena ação pode ter um grande impacto no universo, qual (ou quais) a (s) pequena(s) ação (ões) que pode (riam) ser feita (s) (e/ou provocadas) que causariam um diferencial positivo para garantir o equilíbrio ambiental?

Sem afeto nossa vida parecerá miserável. Somos seres que nos definimos através de processos de relação. Nossas identidades não são possíveis de descrever em si mesmas, mas apenas como forma de relação. Relações positivas produzem felicidade, relações negativas produzem sofrimento. Alguém que tenha tido muitos êxitos em seus projetos de vida, se não tiver processos de relação amorosos e compassivos, não conhecerá a felicidade. Sem a felicidade seus êxitos serão inúteis, pois sua vida parecerá sem sentido e dolorosa. A noção de felicidade individual, isolada, auto centrada representa uma teoria sem verificação prática, é um engano. Quando entendemos nossa realidade interna verdadeira, compreendemos que podemos ser os jardineiros uns dos outros e também cultivarmos e nos alegrarmos como o brilho e vitalidade dos seres da natureza que nos rodeia.

O Senhor acredita no desenvolvimento sustentável como um caminho para o desenvolvimento econômico-social, para a diminuição das desigualdades e aumento da prosperidade do cidadão?

O desenvolvimento sustentável é um meio hábil para minorar nossas dificuldades sociais e ambientais. Dentro de um planejamento onde buscamos atingir um patamar de atividade econômica e facilidade material, é perfeito. Dentro da perspectiva de expansão ilimitada, nunca haverá a possibilidade de desenvolvimento sustentável e nem há soluções técnicas que viabilizem esta idéia. É necessário, abandonar a teoria equivocada de que o crescimento econômico é que trará a felicidade e que o foco é encontrarmos soluções tecnológicas que permitam isto. Há dois grandes obstáculos nisso. O primeiro é que a atividade econômica não pode se expandir indefinidamente a taxas fixas, o planeta não suportaria mais do que um tanto. O segundo é que os recursos podem ser buscados e os bens adquiridos, mas a dimensão de felicidade e segurança é mais profunda e não é alcançada assim. Veja-se que a grande expansão econômica trouxe paralelamente grandes frustrações que terminam por gerar uma epidemia de uso de drogas legais e ilegais e também uma epidemia de doenças mentais e emocionais. Vemos portanto que o desenvolvimento econômico é um item dentro de uma abordagem necessariamente mais complexa.

O que significa, para o Senhor a prosperidade para o cidadão comum?

Esta é uma questão muito interessante. A prosperidade pode ser medida pelo tanto que nos aproximamos dos objetivos de nossas vidas. No sentido budista, o objetivo de nossas vidas é reconhecer a dimensão ilimitada e imperecível que nos anima e sustenta. O caminho que vivemos para chegar a isto é a compaixão e o amor por toda a vida. Se não encontrarmos este resultado e nem tampouco o caminho, nossa vida passará como um sonho rápido, amargo e sem sentido.

Considerando as análises de que a elevação do padrão de consumo causa desequilíbrio (os estudos indicam, por exemplo, de que para elevar o padrão de consumo dos chineses ao patamar dos americanos seriam necessários três planetas terra), como a sociedade pode diminuir os padrões de consumo, já que essa é a essência do capitalismo?

Pode parecer paradoxal, mas se o foco da atividade de cada pessoa for realmente sua satisfação, o desperdício de energia, de inteligência e de recursos se reduzirá dramaticamente. Há uma falsa vinculação entre a expansão das atividades e a felicidade. De modo prático vemos justo o contrário. Não creio que o foco deva ser a diminuição da atividade econômica. O foco deve ser o bem estar de todos e o equilíbrio, a atividade econômica seguirá naturalmente no ritmo necessário a este foco principal.

Na sua opinião, qual a saída (ou a melhor saída) para a humanidade?

Não há uma solução técnica. Nosso papel é trabalhar incessantemente para trazer benefícios a todos os seres e para reduzir as adversidades, sem mesmo olhar para ver se teremos êxitos ao final. Há uma conspiração positiva sempre em marcha mesmo que não vejamos isto. Há uma força imensa de boa vontade que manteve a biosfera viva e os seres humanos vivos até agora. Devemos nos harmonizar a esta força. Precisamos ampliar a visão, ter mais clareza sobre o que vem a ser positivo e o que se manifesta como negativo. Todos queremos a felicidade e livrarmo-nos do sofrimento. Assim, mesmo as forças negativas mudarão seu rumo quando necessário. Estamos em meio a um processo pedagógico e vamos aprendendo aos poucos através de nossos acertos e erros, mas essencialmente todos convergimos nos objetivos de buscar felicidade e segurança.

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Palavras do Lama...

« Sem afeto nossa vida parecerá miserável. Somos seres que nos definimos através de processos de relação. Nossas identidades não são possíveis de descrever em si mesmas, mas apenas como forma de relação. Relações positivas produzem felicidade, relações negativas produzem sofrimento. »


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