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Meditar pelo amor universal é renascer espiritualmente

Entrevista
Meditar pelo amor universal é renascer espiritualmente
São José do Rio Preto, 13 de abril de 2008
  Orlandeli/Editoria de Arte  

Rita Fernandjes

O mestre do budismo tibetano Lama Padma Samten volta a Rio Preto em maio (depois de nove meses) para ministrar a palestra “Mente, Saúde e Qualidade de Vida”, organizada pelo Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) do município. Em entrevista à Revista Bem-Estar, o Lama ensina quatro passos a serem dados rumo à felicidade: motivação, evitar ações negativas, ser capaz de trazer benefícios aos outros seres e alcançar a capacidade de dirigir a própria mente. Segundo ele, é a mente positiva que trilha a felicidade e, conseqüentemente, a saúde e a qualidade de vida. Lama Padma ainda ensina a forma correta da meditação metabavana (a meditação do amor universal), o que ele define como um renascimento espiritual. Leia a entrevista abaixo:

Bem-Estar - Qual é a relação entre mente e saúde para ter qualidade de vida?
Lama Padma Samten - Quando nós olhamos profundamente o que somos, freqüentemente não temos uma clareza e mencionamos nossos apegos e fixações. Porém esses apegos e fixações não revelam diretamente a natureza de liberdade da nossa mente. As tradições religiosas (e também a tradição psicanalítica) falam da oportunidade de mudarmos. Se podemos mudar é porque não somos aquilo que nos caracteriza. O ponto mais importante apontado no budismo é que temos uma liberdade natural de nos apresentar - seja na forma como nos apresentamos hoje ou pelas características que tivemos no passado. O ponto importante é assim: a forma emocional como nos apresentamos hoje (a emoção que a gente manifesta eventualmente é a forma que nos caracteriza) tem um reflexo sobre o corpo e sobre a qualidade de vida. Por exemplo, a nossa qualidade de vida de um jeito ou de outro está relacionada à noção de felicidade.

Bem-Estar - Então quando estamos feliz o corpo reage de um jeito e quando estamos infeliz, reage de outro?
Samten - Exatamente. Todos nós aspiramos felicidade e queremos nos livrar do sofrimento. Isso está ligado à qualidade de vida. Agora, como essa qualidade de vida se reflete nas nossas condições de saúde? Nós dizemos assim: quando temos uma condição de lucidez, temos equilíbrio, então temos emoções mais favoráveis. Segundo ponto é que, com emoções mais favoráveis, a nossa respiração funciona melhor. Quando nossa respiração funciona melhor, o calor do corpo (energia) é distribuído melhor sobre todo o corpo. Quando isso acontece, nós temos uma capacidade de mobilização. O nosso corpo se mobiliza melhor (sem regiões de rigidez, de tensão) e, quando se mobiliza melhor, nós temos força, temos tônus no corpo todo. Isso inclui não só os músculos, as articulações etc., mas todos os sistemas que operam dentro do corpo e todos os órgãos.

Bem-Estar - E do contrário?
Samten - Do contrário. se estamos infelizes e fixados em emoções, essa fixação produz uma dificuldade de respiração adequada, o que dificulta o próprio calor (energia) fluir de forma adequada pelo corpo. Naturalmente, isso vai impedir a mobilidade. Nós vamos ficar com regiões mais rígidas. o que afetará o tônus, a energia de movimento e a força. O budismo vem no sentido de que ultrapassemos as fixações da própria mente para desenvolver relações melhores consigo e com outras pessoas, seja autoridades, estruturas de poder ou a própria natureza. Quando olhamos em volta de forma mais equilibrada, nossas emoções melhoram, nossa respiração melhora, nossa felicidade melhora, nossa energia melhora e o corpo todo melhora também.

Bem-Estar - Então a felicidade depende da responsabilidade universal, ou seja, precisa de todo mundo e um depende do outro?
Samten - Isso. De uma forma muito, muito íntima, porque quando olhamos o outro, as relações já se estabelecem. Quando pensamos sobre o outro ou imaginamos o outro, o nosso corpo responde. A imaginação traz emoções associadas - temos perturbação de respiração e assim por diante. Então é necessário que, na nossa própria mente (quando a gente simplesmente aponta o outro mentalmente) já surja isso de forma positiva. O budismo ensina como desenvolver essa relação de forma positiva.

Bem-Estar - Isso que é responsabilidade universal?
Samten - Responsabilidade universal significa que. mesmo muito distante de alguém, a forma como construímos a imagem de uma pessoa nos afeta. Então não há nada dentro do universo que não tenha um reflexo direto sobre a nossa saúde e o nosso bem-estar, mesmo em grande distância. Nesse sentido, não se trata de dizer que “os átomos se conectam”, que “a energia física se conecta” ou “a vida tem uma relação física entre os diversos seres”, mas, muito sutilmente, nós temos essa interconexão. O fato de termos uma interconexão nos torna dependentes dos nossos pensamentos e da forma como vemos os outros. E a compreensão dessa complexidade é chamada de responsabilidade universal.

Bem-Estar - Quer dizer que é importante sempre manter a mente sã e positiva?
Samten - Positiva. Exatamente. Nos vários tipos de relação. Na visão budista, nos construímos através do que somos. E o que nós somos é definido através dos processos que estabelecemos das relações com todos os outros, incluindo a natureza, as pessoas de dentro da nossa casa e as pessoas que estão muito distantes.

Bem-Estar - O senhor acha que hoje os problemas do mundo são conseqüência da falta de ações com lucidez e compaixão, como defende Sua Santidade Dalai Lama?
Samten - Eu acredito que é exatamente isso. Quando nós nos construímos uns aos outros de forma negativa, isso é um problema. Hoje, Sua Santidade Dalai Lama enfrenta essa situação no Tibete (dominado pelo governo chinês). Uma das práticas principais do Dalai Lama é justamente não olhar os chineses como negativos. Sua Santidade olha de uma forma que sempre espera e reconhece nos chineses a possibilidade de fazer algo melhor. E também nos tibetanos. Essa é a base do pensamento budista. Nós não construímos as pessoas através de suas ações ou emoções. A gente acredita sempre que elas podem manifestar a natureza búdica, a natureza divina dentro delas. E isso seria muito bom para eles e para todos.

Bem-Estar - No nosso dia-a-dia, sempre temos conflitos de relacionamentos. Nesse sentido, a gente sempre tem de esperar dessas pessoas e pensar que elas têm uma natureza positiva e são capazes de melhorar?
Samten - Isso. Porque elas não são aquilo que apresentam. Elas são uma liberdade de apresentar aquilo também. Mas elas podem apresentar outras emoções. No passado apresentaram outras configurações emocionais e outras certezas, e hoje apresentam a atual configuração. Mas as pessoas são livres, elas têm uma natureza livre dentro delas. Por menos que vejam isso, elas têm essa natureza livre, tanto que na passagem do tempo elas mudam.

Bem-Estar - Pensar dessa forma ajuda a enfrentar os problemas de uma maneira melhor?
Samten - Eu acredito que sim, porque nós não fixamos a situação. Nós olhamos a situação como ampla. Nós olhamos o mundo como algo que está em permanente construção e a gente aspira que essa construção seja a mais favorável. Só essa disposição mental já melhora nossa felicidade, nossa qualidade de vida e nossa saúde também.

Bem-Estar - O que é sabedoria espiritual?
Samten - Sabedoria espiritual diz respeito a isso também, mas em especial à compreensão ao que no budismo é chamado de “darmata”. Darmata significa compreendermos o âmbito de realidade onde não há nascimento nem morte. Nós entendemos que a vida toda é como manifestação permanente de um grande oceano. É permanente. Então quando nós conseguimos viver os aspectos transitórios e ao mesmo tempo nós percebemos essa vida incessante, que produz a aparência transitória da vida como nós vemos visualmente, quando nós percebemos isso, é a visão espiritual mais elevada. A visão espiritual mais elevada, portanto, não abandona a visão do mundo. Ela integra a visão do mundo com a visão mais profunda. Então nós vamos reconhecer que a visão do que está na nossa frente tem um reflexo natural da realidade espiritural.

Bem-Estar - No começo dessa entrevista, o senhor disse que é possível mudar. Como perceber a necessidade de mudança e chegar a ela?
Samten - A percepção da necessidade de mudança pode ser muito simples. Basta olhar como você se caracterizava há 10 ou 20 anos. E você vê que agora se caracteriza de uma forma diferente. Logo uma mudança é possível. A questão é como produzir uma mudança positiva de modo consciente, de modo deliberado, e como encontrar meios para que essa mudança se acelere e seja real, efetiva. Então esse é o objetivo não só das tradições espiriturais (inclusive do budismo), mas das tradições da psicologia.

Bem-Estar - Mas quais são os caminhos?
Samten - O budismo usa a meditação como um dos métodos, mas usa isso também que eu estou falando, que é estabelecer relações apropriadas com as outras pessoas - ou seja, o ensinamento sobre responsabilidade universal. Esses ensinamentos são muito úteis numa prática social, onde nós ajudamos as populações a desenvolverem uma melhor relação interna e também com o mundo ao seu redor. O budismo desenvolve uma visão social da realidade - isso está ligado à responsabilidade universal e tem muitos resultados.

Bem-Estar - Então é possível dizer que a mente constrói a nossa realidade? A partir da mente podemos ser felizes ou infelizes?
Samten - Com certeza. É importante entender que a operação da mente que produz isso nem sempre é uma operação consciente. Nós construímos as realidades e as realidades alteram de modo que nem sempre temos uma clareza de como está se dando. Então faz parte da tradição budista clarificar isso, mesmo num nível sutil, no nível que não é totalmente aparente, daí a importância da observação, que a gente começa a desenvolver sobre as nossas próprias ações, pensamentos e emoções. E também a importância da meditação, que nos permite olhar isso com maior profundidade.

Bem-Estar - Qual é o caminho da felicidade?
Samten - O caminho da felicidade seria, em primeiro lugar, não aspirarmos ser grandes, bonitos, musculosos ou vitoriosos, mas pensar que gostaríamos de ser felizes. E aspirar isso para nossos filhos e para as pessoas que estão ao nosso redor. Aspirar que sejam felizes, que se libertem do sofrimento, que encontrem as verdadeiras causas de felicidade e que se libertem das verdadeiras causas de sofrimento. Eu digo verdadeira causa porque às vezes as pessoas dizem que a causa do sofrimento é o fato do time de futebol ter perdido, por exemplo. Essa não é a verdadeira causa de sofrimento. A verdadeira causa do sofrimento é que a pessoa se vincula a coisas que sobem e descem. Enquanto a pessoa estiver vinculada a esses processos que não têm garantia nenhuma, às vezes se alegrará e às vezes se entristecerá.

Bem-Estar - Por isso que às vezes a pessoa tem tudo para ser feliz, mas não consegue?
Samten - Isso. As pessoas estão vinculadas a um processo que não tem controle. Não é que a pessoa perdeu alguém querido, mas é que depende das coisas ao redor para se sentir feliz. Portanto, não está triste porque o time perdeu, mas porque a sua alegria hoje depende do resultado do time de futebol. No budismo a gente busca desenvolver uma atitude positiva em relação às pessoas, que é justamente isso: aspirar que as pessoas se libertem do sofrimento, se libertem das causas de sofrimento e encontrem as causas da felicidade. Essa é uma atitude positiva, que pode ter em qualquer circunstância. Se essa atitude preenche nossos corações e nos dá energia, aí conseguimos avançar. Então o primeiro ponto é esse: conseguir a motivação. O segundo ponto é evitar ações negativas, porque caso contrário ficará aflito. O terceiro aspecto é ser capaz de trazer benefícios aos outros seres. Essa habilidade de cria uma satisfação interior - é como os pais cuidando dos filhos e os professores cuidando dos alunos - eles desenvolvem um sorriso interno, uma energia inexplicável que começa a tomar conta deles. O último ponto é a capacidade de dirigir a própria mente. A capacidade de tomar decisões e cumprir essas decisões positivas.

Bem-Estar -O senhor pode nos ensinar a meditação do amor universal (metabavana)?
Samten - Você senta numa posição confortável (pode ser em cadeira) com a motivação de ultrapassar os problemas e ajudar verdadeiramente os outros seres. Você inspira e expira, se acalma e produz o pensamento e a emoção positivos. Depois vê essa energia se espalhar pela própria respiração, que se transforma num leve calor no corpo (um leve aquecimento que vai de uma extremidade a outra do nosso corpo, dos pés à cabeça). Sinta o corpo com vitalidade. Sinta a forma. Então vai gerar uma condição de felicidade de modo autônomo, sem precisar de mais nada. Você aspira e começa a meditação metabavana. Então você diz: “Que os seres sejam felizes. Que eles ultrapassem os sofrimentos. Que encontrem as verdadeiras causas da felicidade. Que eles ultrapassem as verdadeiras causas de sofrimento”. Essas quatro frases caracterizam a meditação metabavana. Podemos acrescentar outras quatro frases: “Que os seres todos, inclusive nós, se libertem de todas as prisões cármicas. Que a gente tenha lucidez instantânea quando olharmos as coisas. Que a gente desenvolva a verdadeira capacidade de ajudar os seres. Que nesses pensamentos e ações anteriores, a gente encontre o nosso eixo de vida e a nossa alegria”. Isso nos permite um nascimento espiritual, independente da tradição religiosa.

Serviço:
Palestra Mente, Saúde e Qualidade de Vida, com Lama Padma Samten. Dia 6 de maio, às 19 horas, na Acirp (avenida Bady Bassitt, 4.052)



>> Raio X
Lama Padma Samten é brasileiro, criador e presidente do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), em Porto Alegre. Antes de se tornar discípulo por Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche, foi professor do departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, quando ainda era chamado de Alfredo Aveline.


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