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Mensagem especial de Sua Santidade o Dalai Lama para tibetanos dentro e fora do Tibete

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Junto com minhas saudações a todos os tibetanos dentro e fora do Tibete, há alguns temas importantes que eu gostaria de lhes apresentar.

Desde muito jovem, percebi que a transformação de nosso governo em um sistema democrático era da máxima importância para os interesses do Tibete a curto e longo prazos. Por isso, após assumir a responsabilidade como líder espiritual e político do Tibete, trabalhei duro para estabelecer tal organização democrática no Tibete. Infelizmente, não tivemos condições de efetuar isso sob a severa repressão da República Popular da China.

Contudo, imediatamente depois da vinda para o exílio, foram introduzidas reformas criteriosas na estrutura de nosso governo, e um parlamento recém-eleito foi constituído. A despeito de estar no exílio, o processo de democratização da comunidade tibetana fez um belo avanço. Hoje a comunidade tibetana no exílio transformou-se por completo em uma democracia moderna no verdadeiro sentido da palavra, tendo uma administração com sua própria carta constitucional e uma liderança eleita por voto popular. Podemos ter orgulho desse momento, em que o povo tibetano está pronto e capacitado para assumir a responsabilidade pelo Tibete.

O motivo pelo qual persisti encorajando o estabelecimento de um sistema democrático baseia-se inteiramente na necessidade de garantir um futuro sistema de governo sólido e sustentável para o Tibete. Não foi por eu ficar relutante ou querer furtar-me de minha responsabilidade. É extremamente importante avaliarmos a história e nossa experiência passada, bem como aprender com a situação atual a fim de continuarmos nossa luta. Todos os tibetanos deveriam apoiar e fortalecer a instituição da Administração Central Tibetana, por meio da qual teremos condições de preservar o legado cultural tibetano no exílio até a questão do Tibete estar resolvida.

Desde que viemos para o exílio, exercitamos as funções essenciais de um sistema democrático, convidando nosso povo a expressar suas opiniões sobre importantes decisões políticas a respeito do futuro do Tibete. A atual e mutuamente benéfica Abordagem do Caminho do Meio foi formulada no início da década de 1970 como resultado de muita deliberação e discussão com líderes que representaram o povo tibetano, como o presidente da Câmara. Além disso, declarei especificamente na Proposta de Strasbourg que o povo tibetano tomará a decisão final.

Após a ruptura dos contatos com a República Popular da China em 1993, conduzimos uma pesquisa de opinião junto aos tibetanos no exílio e colhemos sugestões dentro do Tibete quando possível sobre o referendo proposto, pelo qual o povo tibetano deveria determinar o futuro rumo de nossa luta por liberdade conforme sua plena satisfação. Baseado no resultado dessa pesquisa e nas sugestões vindas do Tibete, nosso parlamento no exílio aprovou uma resolução dando-me poder para continuar a usar meu discernimento quanto à questão sem recorrer a referendo. Portanto, até agora seguimos a Abordagem do Caminho do Meio, e ocorreram oito rodadas de conversações desde que o contato com a República Popular da China foi retomado em 2002. A despeito de essa abordagem receber ampla aprovação da comunidade internacional, bem como o apoio de muitos intelectuais chineses, não houve sinais ou mudanças positivos no Tibete. De fato, a política da RPC em relação ao Tibete e aos tibetanos permaneceu inalterada.

Depois da sexta rodada de conversações com autoridades da RPC em 2007, não havia planos de se manter conversas adicionais no futuro imediato. Mas, devido à premência da situação no Tibete após os eventos de março deste ano, mantivemos discussões informais no começo de maio, seguidas da sétima e oitava rodadas de conversações em julho e no começo de novembro, de modo a esgotar todas as tentativas e possibilidades. Não obstante, não houve progresso real.

Em março deste ano, tibetanos do território conhecido como Cholka-Sum (U-Tsang, Kham e Amdo), independente de serem jovens ou velhos, homens ou mulheres, monges ou leigos, crentes e não-crentes, incluindo estudantes, arriscaram suas vidas ao expressar corajosamente sua insatisfação de longa data com a política da República Popular da China de modo pacífico e legítimo. Na ocasião fiquei esperançoso de que o governo da China encontrasse uma solução baseada na realidade local. Ao contrário, porém, o governo chinês ignorou e rejeitou por completo os sentimentos e aspirações dos tibetanos, caindo duramente sobre eles, usando como desculpa a acusação de que eram “separatistas” e “reacionários”. Durante esse momento aflitivo, movido por imensa preocupação e profundo senso de responsabilidade, exerci toda influência que possuo junto à comunidade internacional e à China, inclusive escrevendo pessoalmente ao presidente Hu Jintao. Mas meus esforços praticamente não fizeram qualquer diferença.

Visto que todo mundo estava preocupado com a questão das Olimpíadas de Beijing, não pareceu apropriado consultar o público em geral naquela ocasião. Agora, uma vez que o momento é mais apropriado, de acordo com a cláusula 59 da Carta Constitucional dos tibetanos em exílio, em 11 de setembro solicitei à nossa liderança eleita que convoque para breve uma Assembléia Especial. Minha esperança é de que os participantes tenham condições de reunir as opiniões de suas respectivas comunidades e as apresentem nessa ocasião.

Levando em conta a inspiradora coragem mostrada neste ano pelo povo em todo Tibete, a atual situação mundial, e a presente atitude intransigente do governo da RPC, todos os participantes, como cidadãos tibetanos, devem discutir em espírito de igualdade, cooperação e responsabilidade coletiva o melhor rumo futuro possível de ação para promover a causa tibetana. Esse encontro deve ter lugar em um clima de abertura, deixando de lado debates partidários. Deve enfocar, isso sim, as aspirações e visões do povo tibetano. Apelo a todos os interessados para que trabalhem juntos de modo a contribuir o máximo que possam.

Essa Assembléia Especial está sendo convocada com o objetivo expresso de proporcionar um fórum para se entender as reais opiniões e visões do povo tibetano por meio de discussões livres e francas. Deve ficar claro a todos que essa assembléia especial não tem nenhuma agenda para chegar a um resultado particular predeterminado.

O Dalai Lama

14 de novembro de 2008

* Tradução de Lúcia Brito. Leia o texto original em inglês.

 

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